Em um mundo dominado pelo cravo e pelo clavicórdio, a criação do piano no início do século XVIII, representou uma revolução por sua capacidade de variar dinâmicas, unindo delicadeza e potência, ele redefiniu a música ocidental.
Sendo um dos instrumentos mais emblemáticos da música ocidental, o piano possui uma história rica que reflete séculos de inovação e evolução musical.
Este artigo desvenda os bastidores dessa invenção, desde os primeiros esboços de Bartolomeo Cristofori até o momento em que o piano se tornou o coração da música clássica.
Os Precursores e a Busca por Expressividade
Antes do advento do piano, instrumentos de cordas dedilhadas, como o “saltério e a lira”, eram amplamente utilizados na Idade Média.
Esses instrumentos prepararam o terreno para a criação de teclados, como o “clavicórdio”, no século XIV, que permitia maior controle expressivo.
No entanto, o clavicórdio produzia um som através de martelos que apenas roçavam as as cordas, como um toque leve e passageiro, que quase um sussurro sonoro, permitindo variações dinâmicas sutis. Ideal para ambientes íntimos, mas com volume limitado.
Posteriormente, o “cravo” no século XVI, surgiu como um dos instrumentos mais sofisticados da Renascença e do Barroco, sendo amplamente utilizado em cortes europeias e por compositores como Bach e Handel.
O cravo usava um sistema de saltadores que “beliscavam” as cordas, gerando um timbre brilhante, porém monodinâmico.
Dominante em igrejas e cortes, mas incapaz de transmitir emoções através de suaves pianíssimos ou vigorosos “fortés”(notas ou sons mais fortes), o cravo tinha uma limitação importante: a incapacidade de variar a intensidade sonora, tornando-o menos expressivo.
O Dilema dos Compositores Barrocos
Johann Sebastian Bach (1685 -1750), embora mestre do cravo, expressava frustração com sua rigidez.
Em cartas, mencionava a necessidade de um instrumento que “respirasse com as mãos do músico”. Essa limitação inspiraria a busca por uma inovação técnica, uma descoberta engenhosa.
Enquanto Bach lutava com a rigidez dinâmica do cravo na Alemanha, o italiano Domenico Scarlatti (1685 -1757), enfrentava um desafio similar em Portugal e Espanha.
Mestre indiscutível do cravo, Scarlatti compôs mais de 550 sonatas que exigiam agilidade técnica extrema, mas esbarravam na incapacidade do instrumento de modular volumes ou sustentar notas.
Em cartas ao poeta italiano Metastasio(Pietro Trapassi), Scarlatti comparava o cravo a “uma pena presa em âmbar – bela, mas sem voar”, revelando sua busca por um meio de expressão mais fluido.
Bartolomeo Cristofori o Artesão
A invenção do piano é creditada ao italiano Bartolomeo Cristofori (1655–1731), um talentoso artesão fabricante de instrumentos de Pádua.
Em 1690, Cristofori mudou-se para Florença a convite do príncipe Ferdinando de Médici, servindo como guardião dos instrumentos musicais da corte toscana.
Em 1698, na Florença dos Médici, insatisfeito com as limitações dinâmicas do cravo, o então fabricante de cravos Bartolomeo Cristofori começou a trabalhar em um projeto secreto. Seu objetivo era criar um “cravo com suave e forte” (gravicembalo col piano e forte).
Por volta de 1700, ele apresentou o “gravicembalo col piano e forte”, que significa “cravo com suave e forte”, posteriormente abreviado para “pianoforte” e, finalmente, “piano”.
Este novo instrumento permitia aos músicos expressar uma gama dinâmica mais ampla, revolucionando a performance musical da época.
A Engenharia por Trás da Invenção
Mecanismo de martelo: Substituiu os saltadores do cravo por martelos revestidos de couro, que percutiam as cordas.
Sistema de escape: Permitia que o martelo se afastasse da corda imediatamente após o toque, evitando abafar o som (invenção crucial patenteada como “escapement”).
Cordas individuais por nota: Ao contrário do cravo (que usava duas cordas por nota), garantia maior clareza harmônica.
A Reação Inicial
Apenas três pianos de Cristofori sobreviveram ao século XVIII. A aristocracia via o instrumento como uma curiosidade e complexo demais para substituir o cravo.
Um relato de 1711 do jornalista Scipione Maffei descreveu o invento como “um cravo que sussurra e grita”, mas a falta de patrocínio limitou sua difusão.
Gottfried Silbermann e o Refinamento Germânico
Após a invenção de Cristofori, o piano começou a se espalhar pela Europa, passando por diversas melhorias ao longo dos séculos XVIII e XIX.
Mas a chave para a popularização do piano veio da Alemanha por Gottfried Silbermann (1683 – 1753), famoso construtor de órgãos, altamente apreciados por Johann Sebastian Bach.
Em 1730, Silbermann adotou e aprimorou o design de Bartolomeo Cristofori, introduzindo mudanças que tornaram o instrumento mais robusto e com maior projeção sonora.
Silbermann, adaptou o design de Cristofori adicionando:
Pedal de sustentação: Mantinha as cordas livres para vibrar após o toque.
Teclado mais leve: Reduziu a resistência das teclas, facilitando a execução rápida.
O Teste de Bach
Em 1747, Silbermann apresentou um piano a Johann Sebastian Bach. O compositor criticou a “aspereza dos agudos” e a “pesadez do toque”.
Silbermann, novamente aperfeiçoou o instrumento, e Bach, ao reavaliá-lo em 1753, não apenas aprovou-o como o promoveu em suas aulas. Esse endosso foi vital para a aceitação do piano entre os músicos.
A Revolução de Mozart, O Piano Encontra sua Voz
Na segunda metade do século XVIII, o piano (então chamado fortepiano) conquistou Viena, epicentro musical da Europa. Wolfgang Amadeus Mozart foi seu maior divulgador:
Em 1777, ele escreveu à família: “O fortepiano é o rei dos instrumentos – nele, posso chorar e dançar na mesma frase”.
Suas 18 sonatas para piano, compostas entre 1774 e 1789, exploraram recursos como o”legato” (notas ligadas) e contrastes abruptos de dinâmica, impossíveis no cravo.
Inovações Técnicas da Época:
Alcance de 5 oitavas (em pianos de Johann Andreas Stein, fabricante preferido de Mozart).
Martelos cobertos com feltro (1780), suavizando o ataque nas cordas.
Beethoven e o Piano Romântico
Ludwig van Beethoven exigiu e impulsionou a evolução do piano. Suas sonatas (como a Patética, 1798) exigiam:
Maior volume: Para preencher salas de concerto maiores.
Resistência estrutural: Suas explosões de acordes quebravam pianos frágeis.
Resposta dos Fabricantes
Broadwood (Inglaterra): Em 1817, enviou a Beethoven um piano de 6 oitavas com cordas mais grossas e estrutura reforçada.
Conrad Graf (Áustria): Em 1820, desenvolveu o “piano de concerto” com 250% mais tensão nas cordas que os modelos de Mozart.
Esse instrumento se destacou pela melhoria no mecanismo de ação, proporcionando um som mais potente e uma resposta mais sensível, o que o tornava ideal para concertos e apresentações em grandes espaços.
A principal inovação de Graf foi o “mecanismo de martelos” e a “ação do piano”, que permitiam uma maior expressividade e controle do som.
A Revolução Industrial e o Desenvolvimento do Piano Moderno
No século XIX, durante a Revolução Industrial, avanços tecnológicos permitiram a fabricação de cordas de aço de alta qualidade e estruturas de ferro fundido, ampliando o alcance tonal e a durabilidade do piano.
1825: Alpheus Babcock (EUA) patenteou o “quadro de ferro fundido”, permitindo cordas tensionadas a 20 toneladas (vs. 2 toneladas em pianos de madeira).
Babcock foi um construtor de pianos norte-americano cuja invenção mais impactante foi este quadro de ferro fundido que resolveu um dos maiores problemas dos pianos do século XIX, a fragilidade estrutural.
Nascido em Massachusetts, Babcock trabalhou em Boston e Filadélfia, tornando-se uma figura-chave na transição do piano artesanal para o industrial.
1830: Inovações como o sistema de cordas cruzadas, introduzido também por Alpheus Babcock em 1830 e posteriormente aperfeiçoado pela Steinway & Sons em 1855, permitiram um som mais rico e potente.
Este sistema consiste no arranjo das cordas mais agudas em forma de leque, dispostas sobre a parte maior do tampo harmônico, com as cordas graves cruzando-as em um nível mais alto.
1843 e 1844: O pedal sostenuto (do italiano “sustentado”), patenteado pelos irmãos Boisselot na França, adicionou novas possibilidades expressivas ao instrumento. Este mecanismo permitia:
Sustentar notas específicas: Ao pressionar o pedal após tocar uma tecla, apenas aquela nota continuava ressoando, enquanto as outras permaneciam secas.
Criar camadas sonoras: Pianistas podiam, por exemplo, sustentar um baixo grave e tocar melodias líricas sobre ele, algo impossível com o pedal de sustain tradicional (que afeta todas as notas).
Para funcionar, o sistema usava uma série de grampos metálicos que bloqueavam os abafadores das cordas selecionadas, mantendo-as vibrando. Era uma engenhoca complexa, mas revolucionária.
1844: Claude Montal(1800-1865), um francês de origem humilde que perdeu a visão aos 6 anos, tornou-se um dos mais brilhantes techniciens de piano do século XIX.
Autodidata, ele aprendeu a afinar e reparar pianos usando o tato e a audição, e em 1834 tornou-se o primeiro afinador de pianos profissional da França. Sua expertise mecânica o levou a uma invenção crucial: o pedal tonal, hoje conhecido como pedal sostenuto.
Na década de 1840, compositores como Liszt e Chopin exigiam pianos mais versáteis para obras complexas. Montal, trabalhando em Paris, identificou a necessidade de um controle dinâmico mais refinado. Seu sistema usava:
Hastes de latão conectadas aos abafadores.
Alavancas de travamento que isolavam as notas escolhidas.
Apesar de patentes semelhantes (como a dos irmãos Boisselot em 1844), Montal refinou o mecanismo para maior precisão, descrito em seu livro L’Art d’Accorder Soi-Même Son Piano (1834).
O sostenuto demorou a ser adotado por sua complexidade mecânica e aumentava o custo dos pianos em 30%.
Também existia a resistência de fabricantes como a Steinway, por exemplo, só incorporou o sostenuto em 1874, após melhorias de Albert Steinway.
Também as dificuldades técnicas, pois muitos pianistas achavam contra-intuitivo coordenar três pedais.
O pedal sostenuto de Claude Montal não foi apenas uma inovação mecânica – foi uma revolução estética. Ao dar aos compositores o controle sobre o tempo e o espaço sonoro, ele pavimentou o caminho para o Impressionismo musical e além. Em suas notas sustentadas, ouvimos o sussurro da história da tecnologia.
1859: Steinway & Sons aperfeiçoou e patenteou o sistema de cordas cruzadas (também chamado de overstringing), maximizando o comprimento das cordas graves para um som mais profundo. Uma das inovações mais transformadoras na história do piano.
Essa técnica de engenharia redefiniu a sonoridade dos pianos modernos, especialmente nos graves, e consolidou a Steinway como líder na fabricação de instrumentos de alto desempenho.
O sistema de cordas cruzadas não foi apenas uma melhoria técnica, foi uma redefinição filosófica do que um piano poderia ser:
Democratizou o poder sonoro: De salões íntimos a arenas, o piano tornou-se versátil.
Inspirou compositores: A riqueza dos graves abriu portas para obras ousadas, como os Estudos Transcendentais de Liszt.
A Steinway não apenas patenteou o sistema em 1859, mas o integrou ao Modelo D-274 (lançado em 1884), ainda hoje o piano de concerto mais usado no mundo.
Hoje, quando um pianista pressiona uma tecla grave em um Steinway, está experimentando a mesma revolução que encantou o século XIX.
A Consolidação como Instrumento Clássico
O piano não se tornou um símbolo da música clássica por acaso. Sua ascensão ao status de “rei dos instrumentos” no século XIX foi resultado de uma combinação estratégica de repertório visionário, padronização técnica e educação sistematizada.
Vamos explorar cada pilar e o evento que coroou essa trajetória: a vitória do Steinway D-274 na Exposição Universal de Paris de 1867.
Os três fatores solidificaram o piano como ícone da música erudita
Repertório Canônico: Chopin (24 Estudos), Liszt (12 Transcendental Études) e Brahms (51 Exercícios) compuseram obras que só faziam sentido no piano moderno. Estes compositores românticos tratavam o piano como um laboratório de inovações, escrevendo obras que desafiavam os limites físicos do instrumento e dos pianistas.
Essas obras não eram apenas difíceis, elas exigiam recursos exclusivos do piano moderno; sustain prolongado, dinâmica extrema e ressonância homogênea. Um cravo ou clavicórdio seria incapaz de executá-las.
Padronização Técnica: No século XIX, o piano deixou de ser um instrumento artesanal para se tornar um produto de precisão industrial. Dois marcos foram essenciais:
A afinação em 440 Hz (adotada na Conferência de Paris, 1859) e o teclado de 88 teclas (finalizado por Steinway em 1880) unificaram a prática musical.
Pedagogia Sistematizada: A popularização do piano exigiu um método de ensino unificado. Carl Czerny (1791–1857), aluno de Beethoven, foi o arquiteto dessa revolução educacional: Métodos como o de Carl Czerny (Escola da Velocidade, 1833) treinaram gerações de pianistas.
Considerações
O piano mais antigo preservado, construído por Cristofori em 1720, está no Metropolitan Museum of Art (Nova York).
Um dos poucos pianos originais de Babcock está no Museu Nacional de História Americana (Smithsonian). É um piano quadrado de 1832, com o quadro de ferro discreto sob a madeira de mogno.
O Piano de Montal: Um Pleyel de 1844, equipado com o sistema original de Montal está no Museu da Música de Paris.
O termo “pianoforte” caiu em desuso em 1880, quando a abreviação “piano” se tornou padrão.
Em 1867, no Exposition Universelle de Paris, um Steinway D-274 venceu o “Grande Prêmio do Piano”, selando a supremacia técnica do instrumento. Era o mesmo modelo que Tchaikovsky usaria para compor seu 1º Concerto para Piano (1875).
Foto deste artigo: Este piano é o mais antigo que existe, é um dos três instrumentos invenção de Bartolomeu Cristofori foi chamada de “gravicembalo col piano e forte” procedente da sua oficina de em 1700 na corte florentina de Médici. Este exemplar, que data de 1720, ainda pode ser tocado.
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Percorremos neste artigo, a verdadeira odisséia do piano que conhecemos hoje, desde os primeiros experimentos de Bartolomeo Cristofori até sua consolidação como o “rei dos instrumentos”. Um testemunho da evolução musical e tecnológica ao longo dos séculos.
O desejo por maior expressividade impulsionou inovações fundamentais, como o mecanismo de martelos, o sistema de escape e, posteriormente, o quadro de ferro fundido e as cordas cruzadas.
Compositores como Mozart, Beethoven, Chopin e Liszt não apenas moldaram o repertório pianístico, mas também influenciaram diretamente o desenvolvimento do instrumento, exigindo melhorias estruturais e sonoras que o tornaram cada vez mais versátil e poderoso.
A Revolução Industrial foi um divisor de águas, permitindo a produção de pianos mais robustos e acessíveis, consolidando sua presença tanto nas salas de concerto quanto nos lares ao redor do mundo.
Ao longo dos séculos, o piano se tornou um símbolo de sofisticação musical, inspiração artística e excelência técnica. Seu legado continua vivo, encantando gerações de músicos e ouvintes, provando que sua história é, acima de tudo, a história da própria música ocidental.



